Sobre gostar das pessoas pelo o que elas são e não pelo o que você quer que elas sejam

Acho que o maior desafio de qualquer relacionamento - não só afetivos - é aceitar as pessoas do jeito que elas são. Talvez faça parte da nossa essência essa vontade de querer enquadrar todo mundo em nossos parâmetros, sejam eles grandes ou pequenos. Isso não significa que devemos nos acomodar nessa ideia. Aceitar as pessoas como elas são não é uma realidade: é um objetivo a ser trilhado.

A forma como nós lidamos com as pessoas muitas vezes é um reflexo de como lidamos conosco. Eu costumo me cobrar muito de ser 100% equilibrada, sabe, com as ideias em harmonia na minha mente e aquela sensação de paz interior intensa. Só que às vezes esse equilíbrio todo não depende só de mim e costuma ser difícil provar pra mim mesma que eu não preciso ser esse ser humano iluminado 24 horas por dia. Esse é só um dos exemplos das Manies que eu me forço para ser, mas eu sei que não sou. 

É natural criar expectativas sobre as pessoas. Não vou chegar aqui provando o contrário, porque não tem como. A gente vive num mundo que valoriza o futuro e que nos faz ter vontade de ter sempre mais - sempre queremos aprender algo a mais, comprar algo a mais, sentir algo a mais - e, no fundo, somos egocêntricos pra caralho. Refletimos nossas expectativas sobre nós e sobre o mundo em cima das pessoas com quem nos relacionamos. E quem sofre com isso é a gente. 

Tem vezes que a gente quer mudar alguém só pra se sentir confortável, sabe? Raramente é pensando na pessoa que queremos que mude. 

VAMOS AO EXEMPLO:
Tipo, quando a pessoa não curte balada, mas você, ao contrário, ama. Você insiste pra ela ir, mas ela nunca tá afim, afinal, ela não gosta desse tipo de rolê. Você se decepciona levemente. Certo dia, entretanto, ela resolve ir, pra tentar te mostrar que ela tá disposta a mudar. Faz um puta esforço pra achar que tá legal, mas depois de 2h você percebe que ela tá gritando por dentro como se dissesse "pelo amor de deus, alguém me tira desse lugar, socorro". Você acha um absurdo, afinal, o mais conveniente seria a pessoa estar felizona e pulando com você do início ao fim. E então, dias depois, vocês vão de novo em uma balada, já que você insistiu novamente e já deixou avisado que não vai aceitar que a pessoa fique cansada depois de 2h. Daí a pessoa fica lá pulando com você até o final, com um puta sorriso forçado na cara, querendo morrê. 
Mas o que importa é você fingir pra si mesmo que a pessoa não tá fingindo pra si mesma, não é mesmo?


Percebe como isso não faz sentido? No fim, você pode até fazer a pessoa vestir outras roupas, gostar de outros filmes, aprender a jogar vídeo-game com você, aprender a problematizar temas polêmicos na hora do almoço com você, gostar do mesmo tipo de música que você... mas de que tudo isso vale, se é forçado? Pra que moldar alguém pra te satisfazer dessa forma? Você gosta da pessoa ou gosta da ideia que criou dela - ou pior, da ideia do que você quer que ela seja? 

Estar namorando o Vini me faz aprender isso diariamente. É natural que a gente mude um pouco a personalidade quando pessoas intensas chegam em nossas vidas e nos agregam coisas boas. Eu comecei a ler HQ's por influência dele e ele começou a cozinhar por minha influência, mas no fundo, a nossa essência continua a mesma. Ele continua amando vídeo-game e tentando me explicar como ele matou o chefão e eu continuo amando problematizar a sociedade enquanto a gente come hambúrguer no Edson - quiosque que vende lanche no canal 5 com a praia, fica a dica! -, e saber que a gente continua com a personalidade/jeito que tinha antes de namorar é fantástico. Eu amo saber que o Vini nunca deixou de fazer algo que ele ama por minha causa, nem eu por causa dele... E eu amo mais ainda saber que a gente se sente confortável e muito à vontade pra continuar sendo quem a gente é, tendo a certeza de que nenhum de nós vai deixar de amar o outro por coisas que fazem parte de nossas essências.

Vamos superar. Se criar expectativas é inevitável, então bora tentar lidar melhor com essa realidade. Ninguém é obrigado a ser o nosso ser-humaninho-da-alegria-eterna.


arte por: henn kim

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